Opinião

Vamos sobreviver à sobrecarga de informação? Uma análise histórica

Sobrecarga de informação

Conteúdo originalmente publicado em pecanha.me

“Estamos gerando conteúdo demais!”

“Quem vai consumir isso tudo? Estamos chegando ao nosso limite!”

Como profissional de conteúdo e tecnologia, escuto afirmações como essa com uma grande frequência. Pessoas preocupadas com o futuro do marketing, que acham que estamos perto de um cataclisma de saturação de conteúdo e que não há mais espaço no mercado para novos produtores e, claro, querendo diminuir o marketing de conteúdo.

Bem, eu discordo.

Mas meu objetivo não é tentar te convencer de nada: quero somente que, ao final dessa leitura, você conheça alguns fatos e tire suas próprias conclusões, seja concordando ou discordando de mim. Para isso, usarei um pouco de história e previsão do futuro para embasar meu raciocínio.

Olhando para o passado

O estudioso francês Vicente de Beauvais nos alertou sobre a sobrecarga de conteúdo que nos aflige, e como que “a falta de tempo e a nossa memória escorregadia não nos permitem reter na memória tudo que é escrito”.

Você concorda com ele que é impossível acompanhar o volume de conteúdo criado no mundo? Eu concordo.

Mas existe um detalhe:

Vicente nos deu esse alerta em sua obra Speculum Maius, escrita em 1255. Isso mesmo, no século XIII já havia pessoas preocupadas com os impactos negativos do excesso de conteúdo no mundo.

Se você pensa em seus avós, por exemplo, imagina que eles consumiam muito conteúdo? Um livro aqui, um jornal ali, rádio, TV que saia do ar à meia noite e por aí vai. Isso não é nada, e eu tenho certeza que seus avós nasceram muito depois de 1255.

Agora imagine o tanto de informação que um cidadão comum consumia no século XIII? Quanto era produzido? Quase nada, comparado com os dias de hoje. Mas mesmo assim, Vicente já estava preocupado.

E ele nem foi o primeiro. Tente adivinhar qual livro tem a seguinte passagem:

E, demais disto, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros , e o muito estudar é enfado da carne.

Se você pensou na Bíblia, acertou! Eclesiastes 12:12, provavelmente escrito entre 450 e 180 antes de Cristo. Ou seja, antes de Jesus nascer, já existiam pessoas preocupadas com o excesso de informação.

Nem vou entrar em detalhes de como isso tudo se repetiu, em escala muito maior, após a invenção da prensa (séc. XV), a popularização do rádio, TV e Internet (séc XX), e dos smartphones (séc. XXI). Isso tornaria o esse texto insuportavelmente longo.

Toda vez que alguma tecnologia aumenta o volume de conteúdo produzido e distribuido, alguém prontamente se mostra preocupado e prevê que estamos perto do nosso limite, o mundo vai se tornar um caos, filhotes de panda morrerão, etc.

E, mesmo assim, mais de 700 anos depois de Vicente de Beauvais já se mostrar preocupado com essa overdose, nenhum limite foi atingido.

E por que esse ciclo sempre se repete?

Future Shock (o choque do futuro)

Para responder a pergunta anterior, o termo Future Shock se encaixa perfeitamente. Esse termo foi cunhado pelo futurista Alvin Toffler, em 1965, novamente, uma época em que tudo andava muito mais “devagar” do que hoje e havia muito menos conteúdo acessível.

Future Shock é, resumidamente, a angústia e o stress sofridos devido à incapacidade das pessoas de lidar com a velocidade das mudanças tecnológicas e sociais. E, claro, um dos principais causadores desse choque é a sobrecarga de informação, termo também popularizado por Toffler.

Segundo ele, essa é a origem de maioria dos problemas sociais. Eu achei meio dramático, para ser honesto.

Eu, como um grande entusiasta das inovações tecnológicas aceleradas, entendo a necessidade de se preocupar com essas mudanças e agir para que elas ocorram da melhor maneira possível, mas atribuir os problemas sociais ao avanço tecnológico é um pouco demais.

É a atitude típica de pessoas que, desde que o mundo é mundo, sempre dizem coisas como: “essa juventude está perdida, antes tudo era mais simples, nós tinhamos valores e, etc, etc, blah, blah”.

Morro de preguiça de gente assim.

Tanto que já estou me desviando do assunto principal do texto: conteúdo. Seguindo a onda do Future Shock, um termo se tornou famoso a partir de um artigo de 2014 do autor Mark Schaefer: o Content Shock

Content Shock é a a época emergente do marketing em que o crescimento exponencial do volume de conteúdo gerado cruza nossa capacidade humana de consumí-lo

Schaefer não está errado, é até difícil compreender o volume de conteúdo sendo publicado o tempo todo na Internet, quanto mais consumí-lo! São 500 horas de vídeo sendo enviados para o Youtube a cada minuto! Veja abaixo:

Quem consome isso tudo? Quem tem tempo para ler tanta coisa? ALCANÇAMOS O LIMITE! É CONTEÚDO DEMAIS!

Calma, jovem gafanhoto.

Essa narrativa de que em algum dia teremos mais conteúdo do que a humanidade é capaz de consumir ignora alguns fatores essenciais, como avanços tecnológicos e filtros.

Basicamente: nem todo mundo tem que consumir todo conteúdo disponível, e toda vez que alguma nova forma de conteúdo ou distribuição surge, ela é acompanhada por tecnologias que permitem a organização desse novo mundo de informações.

Por exemplo: sabemos que quando a Bíblia de Salomão foi escrita já havia um grande número de livros disponíveis. E qual “tecnologia” surge para resolver o problema de se lidar com esse volume absurdo de informações? As enciclopédias.

Não é coincidência que Naturalis Historiaa primeira enciclopédia da qual temos registro, foi publicada entre os anos 77 e 79, um pouco depois da Bíblia de Salomão. Uma obra que reunia “20 mil fatos, sobre 2 mil temas de 200 autores” e é um dos primeiros esforços conhecidos para se compilar informações. (Curiosidade super legal: o autor, Plínio, o Velho, morreu na erupção do monte Vesúvio no ano 79, a mesma que dizimou a cidade de Pompeia)

As enciclopédias surgiram pois havia muitos livros; os índices (sim, aquela lista do que uma obra contém) são relativamente recentes, se popularizando somente após a prensa de Gutenberg; os guias impressos de TV só foram necessários devido aos 200 canais da TV a cabo e o Google foi a resposta ao volume gigante de conteúdo disponível na Internet e por aí vai.

Hoje em dia nós não pensamos em enciclopédias, bibliografias e índices como tecnologias, mas todos foram revolucionários e essenciais.

Ou seja, existe um ciclo em que sempre que há um aumento considerável de conteúdo sendo criado e divulgado pela humanidade, algo novo surge para nos ajudar a lidar com esse “problema”. É garantido.

Por que seria diferente nos dias hoje então?

Bem, que tal o fato de que 90% de todos os dados da história da humanidade foram criados nos último 2 anos? Ou seja, desde que o primeiro ser humano resolveu rabiscar algo em uma caverna pela primeira vez até o 7 a 1 da Alemanha, foram criadas menos informações que nos anos de 2015 e 2016.

E uma parte considerável desses dados é conteúdo.

Quem consumirá isso tudo? Não existe gente suficiente no mundo para tal.

Existe solução? O que o futuro nos aguarda?

Prevendo o futuro (e falhando)

Prever o futuro é algo complicado e um dos eventos históricos que melhor ilustra isso é a Grande Crise do Esterco de 1894.

Durante o século XIX todo o sistema de transporte das grandes cidades, seja de pessoas ou bens, era feito por cavalos. Com o objetivo de puxar charretes, carroças e ônibus Nova Iorque possuia, em 1880, cerca de 100.000 cavalos. Londres também possuia um número parecido.

O problema: um cavalo produz algo entre 7 e 16 quilos de esterco e 1 litro de urina por dia, ou seja, em um dia qualquer, cerca de 1,15 tonelada de esterco era despejada nas ruas da cidade. E esse número só crescia.

Em 1894 um escritor do London Times previu que “em 50 anos toda rua de Londres estará soterrada sob três metros de esterco”.

Isso levou à primeira conferência internacional de planejamento urbano, no ano de 1898 em Nova Iorque e, depois de três dias, não encontraram nenhuma solução para o problema do esterco! Não tinha jeito: ia dar merda.

Bem, se você está lendo esse texto agora eu tenho que te dar uma boa notícia: o mundo não acabou enterrado em uma grande pilha de esterco. E, como você já deve imaginar, isso aconteceu pois no início do século XX os cavalos começaram a ser substituídos por veículos automotores.

Mas então, como é possível que os maiores especialistas em urbanização do final do século XIX não conseguiram prever isso? Eram eles incompetentes?

Claro que não. O fato é que era impossível para eles prever que alguém inventaria um veículo que utilizava um motor movido a combustíveis fósseis.

O grande problema sobre prever o futuro, é que temos uma tendência em tentar prevê-lo tendo como base os nossos conhecimentos atuais, o que basicamente faz com que as melhores previsões sejam, no máximo, um chute bem embasado.

Fazer previsões é muito difícil, especialmente sobre o futuro – Niels Bohr

E é exatamente isso que acontece toda vez que alguém tenta prever que a quantidade de conteúdo produzida está perto de alcançar algum limite: essas previsões não levam em conta tecnologias futuras que nos ajudarão a sobreviver esse mar de informação.

As pessoas que hoje creem que seremos enterrados em quantidades infinitas de conteúdo se sentem exatamente da mesma maneira que Vicente de Beauvais no século XIII ou Salomão antes de Cristo.

A diferença é que as tecnologias para lidar com o nosso futuro ainda não foram inventadas e é quase impossível prevê-las. Obviamente isso nos deixa extremamente desconfortáveis, pois existe uma chance real de não haver solução.

Mas se em toda a história da humanidade sempre surgiu algo novo para resolver o “problema” do excesso de conteúdo, por que seria diferente dessa vez?

Por causa disso minha previsão, otimista, é que da mesma maneira que não morremos afogados em merda no século XX, também não morreremos afogados em informações no século XXI.

Existe, claro, uma grande chance de que eu esteja errado. Mas só saberemos isso daqui a vários anos.

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